ENTREVISTA

COP 30: Financiamento climático e o papel do Brasil no agro sustentável

Apesar da importância do financiamento, Roberto Rodrigues destaca que ele é apenas uma base para a transformação real.

Roberto Rodrigues foi um dos participantes do Planeta Campo Talks 2025 - Foto: Caio Luccas
Roberto Rodrigues foi um dos participantes do Planeta Campo Talks 2025 - Foto: Caio Luccas

A Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP) tem sido palco de grandes promessas, mas poucas ações efetivas. Na última edição, realizada no Azerbaijão, a meta de destinar recursos para países em desenvolvimento não foi alcançada.

Agora, com a COP 30 marcada para novembro em Belém do Pará, a expectativa é que a pauta do financiamento climático finalmente avance, colocando o Brasil no centro das discussões.

Para falar sobre esse tema, conversamos com Roberto Rodrigues, professor emérito da FGV e ex-ministro da Agricultura (2003-2006), uma das vozes mais respeitadas do agronegócio brasileiro.

Ele destaca que o evento é uma oportunidade para o Brasil mostrar ao mundo o que já faz em termos de produção sustentável de alimentos, energia e fibras.

“A expectativa é que tenhamos capacidade de organizar o setor privado junto ao setor público para mostrar em Belém aquilo que fazemos com excelência: um agro sustentável”, afirma Rodrigues.

O tema do financiamento climático é central. As edições anteriores da COP definiram que países desenvolvidos deveriam destinar recursos para que os em desenvolvimento pudessem investir em soluções sustentáveis.

No entanto, essa promessa ficou no papel. Em Baku, prometia-se mobilizar US$ 1,3 trilhão por ano até 2035, mas o resultado final ficou em US$ 300 bilhões, bem abaixo do esperado. Agora, a pressão recai sobre a COP 30 para que haja avanço nesse aspecto.

Rodrigues reforça que, apesar da importância do financiamento, ele é apenas uma base para a transformação real.

“O que importa é a prática, e a prática é composta por ações concretas de mitigação, adaptação, com ciência, tecnologia e iniciativas reais”, ressalta.

O agronegócio brasileiro tem exemplos a apresentar ao mundo. Um estudo do Ministério da Agricultura aponta que o Brasil tem 40 milhões de hectares de pastagens degradadas, sem produtividade pecuária ou agrícola.

O Programa de Integração Lavoura-Floresta propõe recuperar essa área, transformando-a em produção agrícola e florestal sem desmatar novas áreas.

“Se nós pegarmos esses 40 milhões de hectares e transformarmos essa área toda, uma parte dela improdutiva, como agricultura, como pasto, como floresta, nós damos uma resposta à agricultura sustentável sem precisar desmatar nenhuma árvore”, explica.

Além disso, a segurança alimentar está diretamente ligada à estabilidade social e política. Para Rodrigues, um país com fome é um país instável. A produção sustentável de alimentos garante não apenas a paz social, mas também coloca o Brasil em uma posição de destaque como fornecedor global.

Um país com fome faz a guerra, derruba governo. Então, é interesse de todos os governos do mundo ter produção de alimentos sustentavelmente para que haja paz. Se nós conseguirmos fazer do Brasil um país campeão mundial em segurança alimentar, faremos dele o campeão mundial da paz. Porque não há paz onde houver fome”.

Outro ponto crítico é a narrativa em torno do desmatamento. Rodrigues defende que a destruição ilegal de florestas não é feita por produtores rurais, mas sim por criminosos que exploram madeira e minérios de forma irregular.

Ele argumenta que o desmatamento ilegal é usado como ferramenta para desmoralizar o setor agropecuário e que o Brasil precisa combater essas atividades clandestinas para fortalecer sua imagem internacional.

“O concorrente usa o desmatamento ilegal como se fosse feito pelo produtor rural para desmoralizar o setor. Tem que acabar com o que é ilegal. Acabar com o desmatamento ilegal, com invasão de terra, com garimpo clandestino. Tudo que é ilegal tem que ser eliminado para tirar do concorrente o argumento falso de que o brasileiro desmata ilegalmente”, defende Rodrigues.

A COP 30 será um teste para o Brasil. O país tem a chance de mostrar que já adota práticas sustentáveis e que pode liderar globalmente na segurança alimentar e no desenvolvimento sustentável.

Resta saber se, desta vez, os países desenvolvidos irão cumprir suas promessas e viabilizar o financiamento necessário para tornar essas iniciativas ainda mais robustas.