A busca por práticas agrícolas mais sustentáveis tem ganhado destaque em diversas culturas, e no cultivo de café, não é diferente. Um estudo do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper) tem demonstrado que a combinação de café Conilon com seringueiras em sistemas agroflorestais pode trazer benefícios significativos para a produção de grãos de alta qualidade, apesar de alguns desafios relacionados à produtividade.
José Altino Machado Filho, pesquisador do Incaper, compartilhou com exclusividade no programa Planeta Campo, do Canal Rural, os resultados dessa pesquisa que vem sendo conduzida há 25 anos. O estudo aponta que, embora a presença das seringueiras reduza a produtividade do café Conilon em torno de 10%, a prática favorece a produção de cafés especiais, ao melhorar a qualidade dos grãos e aumentar a resiliência das plantas às mudanças climáticas.
Benefícios e Desafios do Cultivo de Café Conilon em Sistemas Agroflorestais
De acordo com José Altino, a interação entre o café Conilon e as seringueiras tem mostrado bons resultados, especialmente em anos de seca. O pesquisador explica que, apesar de uma queda de produtividade de 10%, o cultivo do café em áreas sombreadas por seringueiras pode gerar grãos com uma qualidade superior, característica importante para os mercados de cafés especiais.
“É importante ressaltar que a queda de produtividade foi observada com o uso de clones e materiais mais sensíveis ao sombreamento. Quando se usa material adequado, a produtividade pode até aumentar em comparação com áreas expostas ao sol pleno”, afirma José Altino. Além disso, ele destaca que o estudo demonstrou que, mesmo durante períodos de déficit hídrico, as plantas que estavam no sistema agroflorestal mantiveram sua estabilidade produtiva, algo que não ocorreu com áreas cultivadas com sistemas convencionais.
A resiliência da cultura em sistemas agroflorestais se deve à maior diversidade de espécies e ao equilíbrio ecológico proporcionado pela interação com outras plantas. O estudo, conduzido em condições de sequeiro, mostrou que os cafeeiros sob sombra têm maior capacidade de suportar variações climáticas, como períodos de seca e altas temperaturas.
A Sustentabilidade como Ponto Central
A sustentabilidade é um conceito que permeia todo o estudo desenvolvido pelo Incaper. Além de beneficiar a produção de café, os sistemas agroflorestais contribuem para a preservação do solo, da água e da biodiversidade, fatores essenciais para a continuidade da produção agrícola a longo prazo.
José Altino enfatiza que a sustentabilidade não se limita à produção de cafés orgânicos ou a práticas “naturais”, mas envolve também a sustentabilidade financeira do produtor. O pesquisador destaca a importância de adotar práticas que reduzam a dependência de insumos externos, como fertilizantes e irrigação em excesso, e que promovam a saúde do solo e da vegetação. Segundo ele, o uso de técnicas de manejo eficiente pode tornar o sistema agroflorestal mais viável e benéfico para os produtores.
O Incaper também tem implementado programas de incentivo à sustentabilidade, com ênfase no manejo nutricional do solo e na promoção de certificações como 4C e UTZ, que sinalizam para o mercado global que a produção capixaba é responsável e sustentável.
O Caminho para a Adaptação às Mudanças Climáticas
Um dos maiores desafios da agricultura atual é a adaptação às mudanças climáticas. A alta variabilidade climática, com períodos prolongados de seca e aumento de temperaturas, tem afetado a produção de café no Brasil, o maior produtor mundial do grão. Para os caficultores que buscam uma alternativa viável para garantir a segurança alimentar e a estabilidade da produção, os sistemas agroflorestais são uma excelente opção.
José Altino acredita que o modelo de cultivo que alia o café Conilon à sombra de seringueiras oferece não apenas um aumento na resiliência das plantas, mas também uma diferenciação no mercado de cafés especiais. “O Brasil tem a responsabilidade de fornecer café para o mundo, e este mercado está exigindo mais produto. Adotar práticas que aumentem a resiliência da produção é fundamental para garantir a oferta constante e estável”, explica.
A Orientação Técnica e a Importância da Pesquisa
O pesquisador também ressaltou a importância da busca por orientação técnica para os caficultores que desejam adotar sistemas agroflorestais em suas lavouras. Para ele, a ciência e a pesquisa são essenciais para garantir que o manejo adequado seja aplicado. “Não podemos tomar decisões baseadas em fofocas ou ideias infundadas. A adoção de novas práticas deve ser guiada por dados científicos”, destaca José Altino.
Em relação à transição para sistemas agroflorestais, ele recomenda que os produtores estejam atentos ao manejo integrado das culturas e ao cuidado com os ventos, que podem aumentar o consumo de água e diminuir a resistência das plantas. “É importante planejar bem o uso da terra, cultivar as plantas de forma racional e buscar sempre melhorar o manejo para aumentar a produtividade de forma sustentável”, conclui o pesquisador.
Com a constante evolução das pesquisas do Incaper e a implementação de práticas sustentáveis, o futuro da cafeicultura no Espírito Santo e no Brasil tende a ser mais resiliente e preparado para os desafios das mudanças climáticas, ao mesmo tempo em que oferece grãos de excelente qualidade para o mercado global.