PRECISÃO NO CAMPO

Rede Pecos, da Embrapa, mede emissões da pecuária na prática

Em parceria com associações de raça, projeto avalia eficiência alimentar e emissões de carbono para selecionar touros mais sustentáveis

Imagem mostra animal usando mochila durante demonstração de projeto da Embrapa
Foto: Reprodução/Canal Rural

As estratégias para aumentar a produtividade na pecuária de corte ganham cada vez mais um aliado indispensável: a sustentabilidade. Liderada pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a rede Pecos (Rede de Pecuária Sustentável) tem se destacado ao estudar o balanço de carbono e as emissões de gases de efeito estufa (GEE) na atividade.

O projeto, iniciado em 2010, estende-se por todos os seis biomas brasileiros: Mata Atlântica, Caatinga, Pantanal, Amazônia, Cerrado e Pampa.

Para acompanhar de perto o impacto prático dessa iniciativa, a reportagem do Planeta Campo foi até a Embrapa Pecuária Sul, localizada em Bagé (RS), unidade responsável pelas pesquisas no bioma Pampa. Em 2022, a equipe de pesquisadores locais decidiu dar um passo além na qualificação dos reprodutores que passam por avaliações na unidade.

“Nos perguntamos por que não fazermos também, junto com a prova de eficiência alimentar pela qual passam os touros vindos das associações de raça, a prova de emissão de gases? Isso permite dar um avanço a mais na qualificação desses animais”, explica Cristina Genro, pesquisadora da Embrapa Pecuária Sul.

A unidade mantém parcerias consolidadas com associações de criadores das raças Hereford e Braford, Angus e Ultrablack, além de Charolês.

Anualmente, as entidades convocam seus afiliados para inscreverem reprodutores que participarão dos testes. Por parte dos pecuaristas, o engajamento reflete um compromisso histórico. De acordo com um representante do setor produtivo, o cuidado com a avaliação e a sustentabilidade já vem de gerações passadas.

Tecnologia e precisão no campo

Para determinar o nível de sustentabilidade de cada sistema, os pesquisadores da rede Pecos monitoram rigorosamente diferentes modelos de produção, realizando medições no solo, na pastagem e no comportamento animal. O objetivo central é transformar dados brutos em informação científica robusta.

As avaliações seguem um calendário específico e começam pela Prova de Eficiência Alimentar, que dura 70 dias. O processo funciona da seguinte forma:

  • Identificação: Todos os animais utilizam brincos eletrônicos.
  • Monitoramento: Ao se aproximarem dos coxos automáticos, o sistema registra a presença, o tempo de permanência e a quantidade exata de alimento consumida em cada refeição.
  • Pesagem: Os touros são pesados a cada 10 dias para cruzar o ganho de peso com o consumo.

O engajamento do setor produtivo nessa rotina de testes reflete um compromisso histórico. De acordo com o presidente da Associação Brasileira de Criadores de Angus e Ultrablack, José Paulo Cairoli, esse olhar atento não é recente.

“Nós, como produtores, temos esse cuidado, e esse cuidado desta geração e da geração que antecederam já existe. Então, nós temos a certeza que nós estamos avançando muito. O país é extremamente agropecuário, portanto tem foco nisso e tem feito todo o trabalho para desenvolver esta área”, destaca Cairoli.

A eficiência alimentar está diretamente ligada à redução do impacto ambiental. O objetivo é identificar animais que consigam comer menos e produzir mais carne. Conforme defende o dirigente, no momento em que isso ocorre, há uma redução natural na emissão de metano, contrapondo discursos de que o setor não está atento às questões climáticas.

“A Associação Brasileira de Angus é pioneira dentro desse processo e nós acreditamos que esta é a forma que nós estaremos contribuindo para o nosso país no desenvolvimento da eficiência da pecuária — a pecuária de resultado que nós aqui na associação acreditamos muito”, pontua o presidente.

O teste da mochila: como é medido o metano

Após o encerramento da etapa alimentar, os mesmos animais, mantidos nas mesmas instalações e sob a mesma dieta, passam pela Prova de Emissão de Gases, que se divide em duas fases ao longo de 12 dias:

  • Fase 1: Adaptação – 7 Dias ──> Uso de arreios e mochila (sem coleta)
  • Fase 2: Coleta – 5 Dias ──> Conexão dos tubos e mangueira no focinho

Durante os primeiros sete dias, os bovinos utilizam apenas os arreios — que consistem em uma estrutura semelhante a uma mochila nas costas e um buçal na cabeça — para fins de adaptação.

Na fase seguinte, que dura cinco dias, são instalados os tubos coletores e uma mangueira conectora reguladora que fica próxima ao nariz do animal para capturar o ar expelido. Ao final do quinto dia de coleta, o material é retirado e enviado ao laboratório para a análise da concentração de metano.

O futuro da carne de qualidade

Os resultados obtidos pela rede Pecos desempenham um papel estratégico para o futuro do agronegócio nacional, servindo de base para o desenvolvimento de políticas públicas, além de promover avanços em rastreabilidade e qualidade.

A classe produtora tem demonstrado forte apoio à pesquisa, entendendo que a eficiência técnica e o manejo correto da pastagem e da suplementação são as ferramentas mais eficazes para a mitigação de gases.

Segundo representantes do setor, o conceito de carne de qualidade mudou. Atualmente, o mercado não admite um produto que não seja sustentável sob os pilares econômico, financeiro e ambiental, e o crescimento do negócio depende diretamente do produtor fazer a sua parte no campo.