CITRICULTURA

Pesquisadores encontram novos caminhos para frear uma das piores doenças dos citros

Pesquisadores desenvolvem tecnologias para identificar o vírus com rapidez, reduzir o uso de acaricidas

Citros
Foto: Reprodução/Planeta Campo

O Instituto Biológico (IB-APTA), em parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária Embrapa e outras instituições de pesquisa, desenvolve estudos que prometem fortalecer o combate à leprose dos citros, uma das doenças mais prejudiciais à citricultura brasileira, ao mesmo tempo em que amplia pesquisas voltadas ao uso de bioinsumos, como o fungo Trichoderma, para reduzir a dependência de defensivos químicos na agricultura.

A leprose dos citros é causada por um vírus transmitido por um ácaro e figura entre os principais desafios dos produtores de laranja, especialmente no cinturão citrícola formado pelo estado de São Paulo e o sudoeste de Minas Gerais.

Somente na última safra, a doença provocou a queda precoce de aproximadamente 300 mil toneladas de frutos, comprometendo a produtividade dos pomares.

“Como o ácaro que é o vetor, não existe controle curativo para o vírus no campo. Então, o controle é todo baseado no manejo do ácaro e o manejo é praticamente todo feito com base em acaricidas”, destaca a pesquisadora da Embrapa Mandioca e Fruticultura, Juliana de Freitas Astúa.

Diagnóstico rápido para orientar o controle

Uma das pesquisas conduzidas pelo Instituto Biológico desenvolveu um método capaz de identificar, de forma rápida e de baixo custo, se o ácaro está infectado com o vírus da leprose.

A técnica consiste em macerar um único ácaro em um tubo contendo reagentes específicos. Após cerca de 45 minutos em banho-maria, a mudança de cor indica o resultado: a coloração rosa aponta ausência do vírus, enquanto tons amarelados ou alaranjados confirmam sua presença.

Foto: Reprodução/Planeta Campo

Segundo Astúa, a ferramenta permitirá que os citricultores realizem aplicações de acaricidas apenas nos locais onde o vetor realmente está transmitindo a doença, reduzindo custos, impactos ambientais e o uso indiscriminado de produtos químicos.

“A ideia é ajudar o produtor na tomada de decisão de quando, onde pulverizar, ao invés de pulverizar numa área ampla, ele pode pulverizar só onde o ácaro realmente está carregando o vírus. Essa que é a ideia para ajudar na sustentabilidade da citricultura”, pontuou.

O método já foi desenvolvido e está em fase de validação com um número maior de amostras, apresentando resultados consistentes e com potencial de chegar ao campo em curto prazo.

Busca por plantas resistentes

Outra frente de pesquisa investiga formas de tornar as plantas naturalmente resistentes ao vírus da leprose.

O pesquisador científico do Instituto Biológico Pedro Luis Ramos González conta que mecanismos de silenciamento gênico são capazes de impedir a multiplicação do vírus dentro da planta. Os testes iniciais foram realizados em plantas modelo e demonstraram estabilidade da resistência ao longo de várias gerações.

A expectativa é que, nos próximos anos, a tecnologia possa ser transferida para plantas cítricas, oferecendo uma alternativa de longo prazo ao controle químico.

Caso os estudos avancem, a estratégia poderá reduzir significativamente a dependência de acaricidas, minimizar o risco de resistência do ácaro aos produtos disponíveis e evitar restrições impostas por mercados internacionais em relação aos resíduos químicos presentes na produção.

Bioinsumos ganham espaço

Além das pesquisas voltadas à citricultura, o Instituto Biológico também amplia estudos com bioinsumos, especialmente com o fungo Trichoderma, considerado um dos principais agentes de controle biológico utilizados na agricultura.

Presente naturalmente no solo, o microrganismo é capaz de combater fungos causadores de doenças nas plantas, funcionando como uma alternativa aos defensivos químicos.

O trabalho com Trichoderma é desenvolvido no Instituto Biológico há mais de três décadas e ganhou força nos últimos dez anos, acompanhando o crescimento da demanda por soluções sustentáveis no campo.

Antes de serem levadas às lavouras, as diferentes linhagens passam por testes laboratoriais para identificar aquelas com maior capacidade de controlar fungos patogênicos.

Atualmente, algumas das linhagens selecionadas pelos pesquisadores já foram licenciadas para empresas e estão disponíveis comercialmente, sendo utilizadas em culturas como soja, milho, cana-de-açúcar e hortaliças.