
Pesquisadores do Instituto de Pesca, em parceria com a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e outras instituições, desenvolvem estudos que utilizam algas marinhas como matéria-prima para a produção de biofertilizantes, bioenergia e outros insumos de alto valor agregado.
As pesquisas são realizadas na Fazenda Marinha Experimental, localizada no litoral norte de São Paulo, onde é cultivada a alga Kappaphycus alvarezii. Originária das Filipinas, a espécie chegou ao Brasil há mais de 30 anos e vem sendo estudada desde 1995, dando origem a uma nova cadeia produtiva voltada para o cultivo sustentável de algas.
“A partir da alga, a gente consegue extrair a carragenana, que é uma gelatina. Essa gelatina é amplamente utilizada na indústria. Também conseguimos extrair o biofertilizante, que é o extrato dela e, a partir do extrato dessa alga, a gente pode desenvolver a agricultura aqui no nosso país”, explicou a pesquisadora do Instituto de Pesca, Valéria Cress Gelli.
Segundo Valéria Cress além de servir como fonte de biomassa para a agricultura, a alga possui diversas aplicações industriais. “Ela pode ser utilizada na indústria de laticínios, ela dá aquela cremosidade. A gente pode estar usando para clareamento de vinho, de cerveja e vários cosméticos”, destaca.
Outro produto obtido é o extrato da alga, que pode ser utilizado na fabricação de biofertilizantes, alternativa considerada promissora para aumentar a sustentabilidade da produção agrícola.
Crescimento acelerado favorece produção
Uma das características que chama a atenção dos pesquisadores é a velocidade de crescimento da Kappaphycus alvarezii, que pode variar entre 3% e 10% ao dia.
Na fazenda experimental, os ramos da alga são presos a cordas submersas e passam por manejo mensal, incluindo podas, limpeza e monitoramento constante. Sem esse controle, o excesso de biomassa pode comprometer toda a estrutura de cultivo.
Atualmente, o Instituto de Pesca mantém um banco genético com 12 linhagens da espécie, entre esporófitos e gametófitos. Cada uma apresenta características próprias, como diferentes concentrações de pigmentos e de carragenana, ampliando as possibilidades de uso industrial.
Potencial para produzir biocombustíveis
Além da aplicação agrícola, a biomassa também desperta interesse para a geração de energia renovável. Como a carragenana é formada por polissacarídeos, pesquisadores estudam sua conversão em bioetanol, criando uma alternativa sustentável para a produção de combustíveis de origem vegetal.
“Além do biofertilizante, a gente pode estar produzindo bioenergia, biocombustível, como o bioetanol. Isso daqui pode ser no futuro uma alternativa de um biocombustível e vamos dizer assim mais sustentável do que o próprio álcool e do que a própria gasolina”, destaca
O objetivo é aproveitar o elevado teor de açúcares presentes na alga para desenvolver biocombustíveis que possam complementar a matriz energética renovável.
Tecnologia monitora cultivo em tempo real
Outra frente do projeto reúne pesquisadores da Unicamp, que desenvolveram boias inteligentes capazes de monitorar as condições ambientais das áreas de cultivo.
Equipadas com sensores de temperatura, salinidade e condutividade elétrica, as boias enviam informações em tempo real para um banco de dados e podem alertar produtores por meio do WhatsApp quando algum parâmetro foge da normalidade.

O sistema permite, por exemplo, antecipar a colheita em períodos de redução brusca da salinidade causada por chuvas intensas ou orientar produtores de mariscos a alterar a profundidade do cultivo quando a temperatura da água aumenta.
Hoje, o protótipo custa cerca de R$ 1 mil, mas os pesquisadores estimam que versões comerciais poderão ser produzidas por aproximadamente R$ 500, tornando a tecnologia mais acessível para a maricultura e o monitoramento ambiental.