
As altas temperaturas registradas entre 2023 e 2024 já provocam impactos severos sobre o agronegócio brasileiro, com reflexos diretos na produção de grãos e na pecuária.
De acordo com relatório divulgado pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), o calor extremo causou uma queda de quase 10% na produção de soja, além de afetar o desempenho dos rebanhos com estresse térmico e redução da produtividade.
Segundo o representante da FAO no Brasil, Jorge Meza, a produtividade agrícola começa a cair quando as temperaturas ultrapassam os 30°C, limite que já vem sendo frequentemente superado em regiões produtoras do Centro-Oeste, Norte e Nordeste.
“As lavouras de milho e soja apresentam perdas de rendimento quando as temperaturas máximas superam 30ºC nos estágios reprodutivos. Em várias regiões do Cerrado esse patamar já é frequente o que faz com que os ganhos de produtividade dependa cada vez mais da genética melhorada de ajustes de calendários agrícolas e de um manejo preciso”, destaca.
Segundo ele, os ganhos de produtividade dependem cada vez mais de tecnologias. “Aqui é importante entender que, em termos práticos, parte importante da agricultura brasileira já não extrai ganhos naturais do clima. Os avanços vêm quase exclusivamente da tecnologia e do manejo, o que aumenta, logicamente, os custos e os riscos”, afirma Meza.
Além das perdas econômicas, o relatório chama atenção para os impactos sobre os trabalhadores rurais. A projeção é de que algumas regiões do país possam enfrentar até 250 dias por ano com calor excessivo para o trabalho no campo, aumentando os riscos à saúde e exigindo adaptações na rotina das atividades.
Medidas adotadas
Além das perdas econômicas, Meza chama atenção para os impactos sobre os trabalhadores rurais. Para ele, a adaptação da agropecuária aos efeitos do calor extremo não depende apenas do esforço individual do produtor rural, é necessário apoio de políticas públicas.
“O produtor não consegue agir sozinho. Para ser bem-sucedido, ele precisa apoio de políticas públicas e de ferramentas desenvolvidas por governos para que atuem dentro dessa perspectiva de investimento em novas tecnologias, tecnologia social, planejamento, educação, e pesquisa. Então, o desafio é político e institucional e não apenas um tema técnico e de conhecimento do agricultor”, afirma Meza.
Em termos práticos, o agricultor pode adotar algumas medidas como o uso de sistemas de irrigação, sombreamento, cobertura do solo, mecanização seletiva e monitoramento climático mais preciso.
Monitoramento climático
Além dos investimentos em tecnologia e infraestrutura, Jorge Meza destaca que o produtor rural precisa ampliar seu conhecimento sobre a relação entre clima e produção agropecuária em cenários de crise climática.
Segundo ele, é fundamental entender melhor os ciclos vegetativos das culturas e os efeitos das mudanças climáticas sobre o desenvolvimento das lavouras, para que o agricultor possa tomar decisões mais assertivas no campo.
Nesse contexto, o acesso a previsões meteorológicas e sistemas de alerta passa a ser uma ferramenta estratégica para o planejamento produtivo e para reduzir os impactos causados pelos eventos extremos.
Saúde do produtor
A adaptação ao calor extremo também passa pela proteção dos trabalhadores rurais. Segundo Meza, é preciso reconhecer que já existem horários do dia em que não é mais seguro realizar atividades ao ar livre, o que exige reorganizar a jornada no campo, antecipando tarefas para períodos mais amenos e adotando pausas obrigatórias para descanso.
Entre as ações recomendadas estão ainda a mecanização seletiva, o uso de vestimentas adequadas, a oferta contínua de água potável e o acompanhamento da saúde dos trabalhadores, garantindo condições mais seguras diante do aumento das temperaturas.