
Em diferentes regiões do Brasil, produtores rurais vêm redescobrindo práticas sustentáveis e aliando conhecimento tradicional à tecnologia para aumentar a produtividade no campo. Em Holambra, no interior de São Paulo, a Estância Futurama é um exemplo de como o manejo integrado do solo pode gerar ganhos ambientais, econômicos e produtivos.
A propriedade trabalha com integração lavoura-pecuária e adota um modelo baseado na observação do sistema como um todo. A área total da fazenda soma 80 mil metros quadrados, sendo 20 mil destinados à preservação ambiental, 30 mil utilizados em rodízio de piquetes e outros 30 mil voltados à produção de milho para silagem.
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O trabalho com a raça bonsmara começou em 2005 e, desde então, o produtor passou a investir em práticas que unem sustentabilidade e eficiência produtiva. A lógica adotada na fazenda considera que um solo biologicamente mais rico melhora a infiltração da água da chuva, reduz compactação e contribui para o equilíbrio do sistema produtivo.
Segundo o produtor rural Willy Groot, o manejo sustentável também reduz a circulação de máquinas agrícolas na lavoura, diminuindo o consumo de diesel, a emissão de CO2 e o desgaste do solo. A mesma lógica vale para os animais, que se deslocam menos em áreas bem manejadas, reduzindo impactos sobre a pastagem.
“Na Estância, a parte sustentável ou a elaboração de novas ideias ou mesmo trabalhos, eles são pensados como um todo, de forma holística”, destaca Groot.
A busca por um modelo mais sustentável surgiu após a percepção de que o sistema convencional, baseado apenas em adubação química e defensivos agrícolas, poderia não se sustentar economicamente no longo prazo. A partir disso, o produtor passou a estudar técnicas ligadas à agroecologia e ao aproveitamento de resíduos dentro da própria produção.
Estratégias
Uma das estratégias adotadas na fazenda é o cultivo consorciado. Em vez de plantar apenas milho, a propriedade combina a cultura com feijão e abóbora na mesma área. O resultado, segundo o produtor, é um aumento da produtividade do milho, além da diversificação da produção sem necessidade de ampliar a área cultivada.
A técnica, considerada ancestral, era utilizada por povos indígenas há séculos e hoje volta a ganhar espaço como alternativa sustentável para o campo. Outra prática resgatada na propriedade é o uso de plantas indicadoras. Em vez de tratar determinadas espécies apenas como “mato”, o produtor observa o que elas podem revelar sobre as condições do solo.
Algumas plantas, por exemplo, indicam excesso ou falta de nutrientes, alterações no pH e desequilíbrios químicos. Com isso, o manejo se torna mais preciso e permite intervenções mais rápidas antes mesmo das análises laboratoriais.
Além da produção dentro da porteira, a Estância Futurama também busca envolver a comunidade local em discussões sobre sustentabilidade e novas formas de produzir no campo. O objetivo é estimular mudanças graduais e fortalecer práticas mais regenerativas na agricultura regional.
Sustentabilidade
A chefe-geral da Embrapa Meio Ambiente, Paula Packer, destaca que sustentabilidade no agro precisa caminhar junto com rentabilidade. Segundo ela, práticas como agricultura regenerativa, sistemas integrados, plantio direto e uso de bioinsumos ajudam a aumentar a produtividade ao mesmo tempo em que reduzem impactos ambientais. “Quando se fala em sustentabilidade você tem que vir com sustentabilidade”, destaca.
Ela afirma ainda que o Brasil já possui muitos exemplos positivos, mas ainda precisa avançar na mensuração desses resultados, especialmente em indicadores como pegada de carbono, pegada hídrica e impacto ambiental. Para isso, a Embrapa desenvolve ferramentas e calculadoras capazes de medir os efeitos das práticas sustentáveis dentro das propriedades rurais.
De acordo com Packer, a agricultura de baixo carbono e a agricultura regenerativa compartilham princípios semelhantes, como menor revolvimento do solo, integração de sistemas produtivos e uso mais eficiente dos recursos naturais. A pesquisadora ressalta ainda que o país possui diferentes biomas, tipos de solo e condições climáticas, o que exige soluções adaptadas à realidade de cada região.