
Em Nova Monteverde, no norte de Mato Grosso, uma propriedade rural vem mostrando que sustentabilidade e rentabilidade podem caminhar juntas. Antes de buscar aumento de produtividade, o produtor rural Miguel Reck decidiu olhar para aquilo que considera a base de tudo no campo, o solo. A partir dessa mudança de visão, a fazenda passou a registrar ganhos em eficiência produtiva.
Natural de Santa Catarina e há 13 anos no Mato Grosso, Reck administra a fazenda da família ao lado da esposa, a produtora rural Traute Reck. A ligação com o campo vem da infância, marcada pela experiência em pequenas propriedades rurais. Segundo ele, foi ali que nasceu a consciência sobre a importância de cuidar da terra.
Na fazenda Caruru, a atividade principal é a cria, recria e engorda de vacas destinadas ao frigorífico, com foco na raça Brahman e cruzamentos industriais. O sistema de produção é baseado em pastagem, suplementação mineral e manejo voltado para eficiência produtiva sem comprometer os recursos naturais.
“O que eu sou muito a favor é da preservação da natureza. Preservar para as futuras gerações também terem um bom proveito. E a terra, na verdade, é a nossa mãe, porque sustenta a gente”, destaca Traute Reck.
Modelo adotado
Enquanto o modelo predominante na região utiliza gradagem e revolvimento do solo, a propriedade optou pelo plantio direto na formação de pastagens. A decisão veio após análises técnicas e econômicas que mostraram vantagens tanto no custo quanto na conservação da fertilidade.
Com análises frequentes do solo, a família observou maior concentração de nutrientes na camada superficial. Segundo Miguel Reck, revolver a terra poderia trazer para cima um solo menos fértil e comprometer a estrutura natural construída ao longo de milhares de anos.
A estratégia também ajudou a reduzir erosões, principalmente em períodos de chuvas intensas, comuns na região. Sem o revolvimento, o solo mantém sua estrutura biológica preservada, com raízes, insetos e microrganismos que favorecem infiltração de água e equilíbrio ambiental.
Sustentabilidade
Os resultados aparecem na produtividade, mesmo sem adubação, a fazenda mantém lotação média superior à de propriedades vizinhas que utilizam o sistema convencional.
Além disso, análises de bioatividade do solo, realizadas com tecnologia desenvolvida pela Embrapa, indicaram que a área apresenta níveis de vida biológica semelhantes aos encontrados em mata nativa.
“O solo é solto e tem muita presença de minhocas, presença de insetos e presença de cupins. Nesse ambiente natural tem muita vida selvagem nossos pastos. A gente encontra tamanduás, antas, porcos do mato e as capivaras. Todas parecem que vivem em harmonia nesse ambiente em que se preserva o máximo que a natureza proporcionou durante tantos anos”, destaca Miguel Reck.
Referência na educação ambiental
Hoje, a fazenda se tornou referência em produção sustentável na região. O trabalho ultrapassou os limites da porteira e passou a envolver também ações de educação ambiental em parceria com escolas locais.
Por meio do projeto “Adote Uma Nascente”, estudantes participam do plantio de árvores, recuperação de áreas e acompanhamento do desenvolvimento das mudas. Cerca de 200 alunos estão envolvidos diretamente nas atividades, que unem prática, conservação ambiental e aprendizado no campo.
Para Miguel, produzir de forma sustentável não é apenas uma exigência ambiental, mas uma estratégia de gestão que gera mais resultado econômico, melhora o manejo dos animais e reduz custos.
A experiência da fazenda em Nova Monteverde mostra que a integração entre conservação ambiental, gestão eficiente e tecnologia pode abrir caminhos para uma pecuária mais rentável e sustentável no Brasil.